E se soubéssemos nosso prazo de validade?

Ultimamente pensei bastante sobre isso. Seria melhor ou pior?

Já ouvi muitas vezes a defesa de viver cada dia como se fosse o último, a final não sabemos o dia de amanhã. Inclusive um trecho do discurso de Steve Jobs em Stanford ficou bem famoso ao falar sobre isso. Para quem não conhece:

“Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo – expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar – caem diante da morte, deixando apenas o que é apenas importante. Não há razão para não seguir o seu coração.”
Sempre achei a passagem bonita, e útil, afinal realmente somos muito vulneráveis e de uma hora para outra podemos não estar mais aqui. Ou então perdermos aquela pessoa tão especial sem estar tão próximos como gostaríamos se soubéssemos que nosso prazo com ela estava acabando. No entanto, essa maneira de pensar e agir nunca virou um código de conduta para mim, por um motivo que explico em seguida.

Quando penso nas coisas que mais me orgulham, nenhuma delas virou realidade da noite para o dia, nem mesmo em poucos dias. Pelo contrário, foram aquelas que quando decidi fazer pareciam inviáveis para a maioria das pessoas, e que até eu mesmo tinha dúvida se era a melhor opção que estava tomando. Mas o que isso tem a ver com o papo inicial? Quando eu penso no que faria se soubesse que estava nos meus últimos dias, com certeza nada disso teria espaço. Eu chutaria o balde, tentaria beber o que faltava de vida como aquela golada de coca-cola pra quem tá morrendo de sede, e foda-se as consequências. Dirigir em alta velocidade, sexo sem camisinha, ir atrás de gente que te magoou, mas que você gosta e por aí vai. Passada essa fase, gostaria de ficar só com as pessoas que mais amo até a hora derradeira e garantir que os últimos momentos comigo foram os mais especiais que eu fosse capaz de fornecer. Em resumo, nesse cenário, seria um show de egoísmo e nada muito útil seria construído.

Refletindo mais um pouco pensei: “Beleza. Não seria legal saber a minha validade, mas e se só soubesse a validade das pessoas em volta?” E vi que esse cenário seria ainda pior, pois só aproveitaríamos as pessoas nessa reta final. E nem aproveitaríamos tanto, pois estariam todos lá ao mesmo tempo, uma merda.

Depois de tudo isso, e ver que do jeito que as coisas são é a melhor opção, uma outra ficha mais importante caiu. Talvez não importe, nem ajude muito pensar em quando vamos deixar esse mundo. A grande miséria da nossa existência talvez seja entrar no piloto automático. Talvez o mais importante, de verdade, seja lembrar que estamos vivos. E velho, isso muda tudo! Já pensou como é uma pessoa de sorte? Você pode começar, agora, a construir o país que quer mesmo que isso demore 50 anos, afinal você, tem a condição mais importante, para conseguir fazer isso: tá vivo. Pode pegar o telefone agora e ligar pra quem você quiser, pode encontrar com um monte de gente super importante pra você. Pode aprender, conhecer, viver, mais uma infinidade de coisas legais!! Aproveita = )

Ailton Arantes Cunha

Sou alguém que acredita que devemos sempre deixar o ambiente que estamos melhor que o encontramos, e que sonhar e colocar a mão na massa é a melhor maneira de ser fiel a si mesmo.